Na noite de 21 de novembro de 1934, uma jovem de apenas 17 anos subiu ao palco do Teatro Apollo, no Harlem, em Nova York, originalmente, para uma apresentação de dança.
Um tanto quanto intimidada pelos dançarinos que a antecederam, a menina resolveu cantar, ao invés de dançar – uma escolha que acabou mudando não apenas sua própria vida, como a história da música ocidental.
A jovem em questão era Ella Fitzgerald.
Cantou, ganhou US$25.00 e mudou para sempre o mundo da música. “Essa é uma história sobre propósito. Quando Fitzgerald reconheceu seu verdadeiro talento na vida, passou a viver seu propósito.” [1]
Vale a pena atentar para o verbo da frase: Ella reconheceu seu talento e, a partir daí, construiu uma jornada única, maravilhosa, que a colocou entre as maiores cantoras de todos os tempos.
Os dançarinos que se apresentaram momentos antes dela, na prática, fizeram um (imenso) favor a Ella. Por meio deles, a vida deu a ela como que um ‘sinal’: Será mesmo que você deveria dançar? Dançando depois deles as chances de alguém ‘te notar’ diminuíram muito, não é? E se… você cantasse?
Ela não foi lá para cantar/ Até ali, na sua própria avaliação, seu talento maior era dançar – mas ela estava atenta. Ela soube ler o momento e, a partir dessa leitura, mudou seus planos – e cantou. O resto, como dizem, ‘é história’.
A vida nos dá ‘sinais’ (chame como quiser, claro) o tempo todo – mas nós temos muita dificuldade em percebê-los, na grande maioria das vezes, seja porque simplesmente ‘não estamos presentes’ (estamos cada dia melhores nessa capacidade de não manter foco no momento presente, não é mesmo?), ou porque somos muito bons em criar nossos próprios bloqueios a tudo aquilo que nos convide a seguir adiante por caminhos em que sentimos ter ‘menos controle’.
Austin Kleon é um autor norte-americano que se define como “um escritor que desenha”, que “faz arte com palavras e livros com figuras.” Seus livros já venderam mais de 2 milhões de cópias e foram traduzidos em mais de 30 idiomas. No mais conhecido deles, no Brasil (“Roube como um artista”) [2], ele afirma que “é no ato de criar e de fazer nosso trabalho que decidimos quem somos.” (p. 35)
Logo adiante, ele vai mais fundo e divide a ideia que quero ‘roubar (como um artista)’ para fechar esse texto: “O manifesto é esse: Desenhe a arte que você quer ver, comece o negócio que quer gerir, toque a música que quer ouvir, escreva os livros que quer ler, crie os produtos que quer usar – faça o trabalho que você quer ver pronto.” (p. 56)
É sobre propósito que estamos falando, certo? Pois bem; alinho-me à ideia de Contado Calligaris [3], para quem o grande desafio está em apaixonar-se pela vida diariamente, a partir do que ela tem de ordinário (p. 106), vivendo o cotidiano como uma aventura (p. 113).
Dia a dia. Um de cada vez. Sempre no presente – que, de verdade, é tudo o que temos.
[1] REIMAN, Joey. Propósito. São Paulo: Ed. HSM, 2015, p. 211.
[2] KLEON, Austin. Roube como um artista; 10 dicas sobre criatividade. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.
[3] CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.